June302014
“Is feminism excluding sex workers?” #YesAllWomen, Except Sex Workers
May302014
Poster da sequência de Sin City, censurado pela Motion Pictures Association of America

Poster da sequência de Sin City, censurado pela Motion Pictures Association of America

May12014

Throwing bananas at actors and sex workers


by Renato Martins

In “Legalising the sex trade means state-approved, monetised gangbangs” (The Guardian, Wednesday 30 April 2014), Tanya Gold throws a banana at Rupert Everett, the leading actor in Channel 4’s Love for Sale series.

I hope he will grab the fruit and give it a good lick before eating it. Who does Ms Gold think she is, to decide what parts an actor should or should not accept to take? Mr. Everett, whom I know nothing about, was brave enough to play the part of a sex worker; who but himself can say that he should or shouldn’t perform on stage or screen “with a co-star placing a penis in his mouth, or anus, and giving him money”(as Ms Gold elegantly puts it)?

And brave he was, in accepting to play the role of a member of one of the most stigmatised professions in all ages. I mean sex workers: prostitutes, porn actors, “exotic” dancers, webcam artists, dominatrixes etc.

Defending the legalisation of sex work is, in Ms Gold’s view, a romantic attitude, and a trap for liberals and leftists. For no good reason, she reminds us of Christopher Hitchen’s misadventure at a brothel, where he was met by an “avaricious bitch”, and she also calls our attention to the “fake charms” of prostitutes. Evil people, these whores.

Ms Gold also uses the ghost of shady human trafficking gangs as an argument against legalisation. In doing so, she joins the many governments who use prostitution as a smoke cloud to hide the failure of their own policies on immigration, drug prevention and social services.

Then there are pimps. Ugly word, isn’t it? It brings up the image from American films, of a black guy in a pink business suit, a kilo of gold
chains pending from his neck, extracting money from the “bitches” that are unlucky enough to work for him.

One must be reminded that many brothel owners are no more than retired sex workers who were able do save enough money to open their own business. They live off a take from the women who work at their houses; is that unfair? The owner’s take is often unjust: but isn’t that an argument for regulation of the trade?

Here in Brazil, Congress is now debating a bill by MP Jean Wyllys (PSOL/RJ) that legalises prostitution. One of the articles caps the brothel owner’s take.

And of course, I remember Ms Soula Alevridou, a brothel owner in Larissa (Greece), who in 2012 became the main sponsor of the local football team, Voukefalas. With Greece facing a huge economic crisis, she also donated to local schools, so that they could buy books. Not very sinister, is it?

Ms Gold mentions a report by Der Spiegel on the supposedly evil effects of legalisation in Germany, but fails to notice that oppression of sex workers in that country is not that different from what workers in other, more “respectful” areas, also have to endure. Capitalism is a bitch, isn’t it? And not only for sex workers.

And “in Sweden, for instance, where the punter is criminalised, the trade just moves elsewhere”. “Elsewhere”, Ms Gold, may be a good place in the eyes of the bourgeoisie, but it is further away from the reach of social services and of legal protection. Moving sex workers and their clients further into clandestinity does little, to say the least, to reduce the prejudice and stigma.

What about New Zealand, where the courts recently granted a $ 20k compensation to a sex worker for sexual harassment? Her winning argument was that she is there to provide paid sex to the house’s customers, not unpaid sex to the brothel’s owner. Such a decision is possible only where sex work is a legalised industry.

Ms Gold also dons the mantle of feminism when she mentions the mysogynist members of punters’ forums. I quote another writer, Leanora Wolpe, a student at Oxford: “This idea of sex work as degrading doesn’t sit right with me, because for all the work that has been done to give women choices and rights, some women who proudly declare themselves feminists slut shame and body police when it comes to those who work in the industry. This version of feminism is more than a little uncomfortable, because sex workers are systematically victimised, criminalised and shamed for expressing their sexuality in a way that doesn’t conform to the ‘acceptable’ version of sex we’ve created in our minds. Our defense against the proverbial ‘man’ who is out to get us and lock us in the kitchen falls down at the point where we need it most. “Your body does not belong to them!” they cry. The last time I checked, it doesn’t belong to you, either.” (“You can be a feminist and a sex worker”, in The Independent, August 5, 2012).

“If I offer sexual access to my body in exchange for accepting patriarchal institutions such as marriage, it is acceptable to some. For others it is my willingness to claim that sex with men for payment is subverting patriarchy that is so provocative and is why they subject sex workers to so much opprobrium”, wrote Molli Desi Devadasi in her blog (http://mollidesidevadasi.blogspot.com.br/2014/03/criminalizing-clients-nasty-and.html?spref=fb).

Ms Gold derides the sex workers’ movement as she mentions “the utopia of self-employed happy prostitutes serenely paying their taxes”. Sex workers themselves do not see their reality as utopic. Check out “The Right to Exist (Me as Much as You)”, a book review by my friend and co-publisher Monique Prada, a Brazilian sex worker (available in English at https://www.facebook.com/redumbrella99.brasil/posts/1412323615652727?stream_ref=10).

Some prostitutes, as Monique and Molli Desi, carry their red umbrellas with pride; others struggle under the burden of centuries of prejudice and stigma. Ms Gold’s article throws bananas at each one of them.

5PM

Jogando bananas em atores e trabalhadores sexuais

Renato Martins

No artigo “Legalizar o trabalho sexual significa gangbangs monetizadas e aprovadas pelo Estado” (The Guardian, 30 de abril de 2014), Tanya Gold joga uma banana em Rupert Everett, o ator principal da minissérie Love for Sale, do Canal 4 da TV britânica.

Espero que ele pegue a banana e dê uma boa lambida antes de comê-la. Quem a senhora Gold pensa que é para decidir quais papéis um ator deve ou não aceitar? O sr. Everett, sobre quem eu não sei nada, foi suficientemente corajoso ao desempenhar o papel de um trabalhador sexual; quem, se não ele mesmo, pode dizer que ele deveria ou não atuar, no palco ou na tela, “com um colega colocando um pênis em sua boca, ou ânus, e dando-lhe dinheiro” (como a sra. Gold colocou, de forma “elegante”)?

E corajoso ele foi, ao aceitar desempenhar o papel de membro de uma das profissões mais estigmatizadas em todos os tempos. Quero dizer trabalhadores sexuais: prostitutas, atores pornôs, dançarinas “exóticas”, artistas de webcam„ dominatrixes etc.

Na opinião da sra. Gold, defender a legalização do trabalho sexual é uma atitude romântica, e também uma armadilha para liberais e para a esquerda. Sem motivo, ela nos lembra de uma experiência ruim de Christopher Hitchens em um bordel, onde ele conheceu uma “cadela gananciosa”, e também chama nossa atenção para os “falsos charmes” das prostitutas. Gente ruim, essas putas.

A sra. Gold também usa o fantasma das gangues do tráfico humano como argumento contra a legalização. Ao fazer isso, ela se junta aos muitos governos que usam a prostituição como cortina de fumaça para esconder o fracasso de suas políticas sobre imigração, prevenção às drogas e serviços sociais.

E então há os cafetões. Palavra feia, não é? Ela nos traz a imagem dos filmes americanos, de um negro de terno cor-de-rosa e um quilo de correntes de ouro no pescoço, extorquindo dinheiro das “cadelas” que têm o azar de trabalhar para ele.

Lembramos que muitos bordéis têm como donas ex-trabalhadoras sexuais que foram capazes de economizar dinheiro suficiente para montar seu próprio negócio. Elas vivem de uma parcela do dinheiro obtido pelas mulheres que trabalham em suas casas; isso é injusto? A parcela do dono frequentemente é injusta; mas isso não seria mais um argumento para a regulamentação do negócio?

Aqui no Brasil, o Congresso está debatendo um projeto do deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) que legaliza a prostituição. Um dos artigos estabelece um teto para a parcela do dono do bordel.

E é claro, eu me lembro da sra. Soula Alevridou, uma dona de bordel em Larissa (Grécia), que em 2012 se tornou a principal patrocinadora do time de futebol local, o Voukefalas. Com a Grécia enfrentando uma enorme crise econômica, ela também doou para as escolas locais, para que elas pudessem comprar livros. Não é muito sinistro, é?

A sra. Gold também menciona uma reportagem da Der Spiegel sobre os efeitos supostamente negativos da legalização na Alemanha, mas deixa de notar que a opressão das trabalhadoras sexuais naquele país não é muito diferente do que os trabalhadores de outras áreas, mais “respeitáveis”, têm de aguentar. O capitalismo é uma merda, não é mesmo? E não apenas para trabalhadoras sexuais.

E “na Suécia, por exemplo, onde o cliente é criminalizado, o comércio simplesmente se muda para outro lugar”. “Outro lugar”, sra. Gold, pode ser um bom lugar aos olhos da burguesia, mas está mais longe do alcance de serviços sociais e da proteção legal. Mover as trabalhadoras sexuais ainda mais para a clandestinidade contribui pouco, para dizer o mínimo, para reduzir o preconceito e o estigma.

E o que falar da Nova Zelândia, onde um tribunal recentemente deu uma indenização de US$ 20 mil a uma trabalhadora sexual como compensação por assédio sexual? O argumento vencedor dela foi o de que ela está lá para prover sexo pago aos clientes, não para dar sexo de graça para o dono do bordel. Uma decisão como essa só é possível onde o sexo é uma indústria legalizada.

A sra. Gold também veste o manto do feminismo ao mencionar os participantes misóginos dos fóruns de clientes. Cito outra escritora, Leanora Wolpe, uma estudante da Universidade de Oxford: “Essa ideia do trabalho sexual como degradante não cola para mim, porque, para todo o trabalho que foi feito para dar direitos e escolhas á mulher, algumas mulheres que se declaram orgulhosamente feministas envergonham e policiam corpos quando é o caso daquelas que trabalham nessa indústria. Essa versão do feminismo é mais do que um pouco desconfortável, porque as trabalhadoras sexuais são sistematicamente vitimizadas, criminalizadas e humilhadas por expressar sua sexualidade de uma forma que não se conforma com a versão ‘aceitável’ de sexo que criamos em nossas cabeças. Nossa defesa contra ‘o homem’ proverbial que está aí para nos agarrar e nos trancar na cozinha cai aos pedaços no ponto em que é mais necessária. ‘Seu corpo não pertence a eles!’, elas gritam. Da última vez que eu olhei, ele também não pertence a vocês.” (“Você pode ser feminista e trabalhadora sexual”, em The Independent, 5 de agosto de 2012).

"Se ofereço acesso ao meu corpo em troca de aceitar instituições patriarcais, como o casamento, isso é aceitável para alguns. Para outros, é a minha disposição de reivindicar que o sexo com homens por pagamento é uma subversão ao patriarcado que é tão provocativa, e é por isso que eles submetem as trabalhadoras sexuais a tanto oprópbrio", escreveu Molli Desi Devadasi em seu blog (http://mollidesidevadasi.blogspot.com.br/2014/03/criminalizing-clients-nasty-and.html?spref=fb).

A sra. Gold zomba do movimento das trabalhadoras sexuais ao mencionar “a utopia de prostitutas autoempregadas, pagando serenamente seus impostos”. As próprias trabalhadoras sexuais não veem sua realidade como utópica. Dê uma olhada em “O Direito de Existir (Eu, Assim Como Você”), uma resenha de livro escrita por minha amiga e co-editora Monique Prada, uma trabalhadora sexual brasileira.

Algumas prostitutas, como Monique e Molli Desi, carregam seus guarda-chuvas vermelhos com orgulho; outras batalham sob a carga de séculos de preconceito e estigma. O artigo da sra. Gold joga bananas em cada uma delas.

January32014
December262013
6PM
5PM
December92013
9emeart:

Corto a la porte
Pratt

9emeart:

Corto a la porte

Pratt

December72013

Blue hair girl

O elevador do Estadão está meio que cheio, descendo no meio da tarde. À minha frente e de costas para a porta, um sósia do Lou Reed. Acho que entrou no quarto andar. Ficou de frente pra mim.

Eu vinha do sexto, assim como o grupo que estava no fundo, atrás de mim. A líder era a moça de cabelo azul que eu via pelos corredores de vez em quando, quase sempre com a pequena matilha no encalço.

Ela começa a cantar Take a Walk on the Wild Side. O grupo e eu começamos a rir. O problema é que eu estava barriga a barriga com o Lou Reed, eu quase às gargalhadas e ele fumegando.

Saí primeiro, ainda rindo. Pensei em agradecer à moça que fez meu dia valer, mas não olhei pra trás. Fumei meu cigarrinho, pensei em escrever essa história algum dia e voltei pra redação.

Lou Reed morreu uns oito dias depois.

… .

Nem sei o nome dela. Nem ela, presumo, o meu.

(Gostei dessa. Dá pra transformar em haikai:)

Nem sei o nome dela.

Nem ela, presumo,

o meu.

(Não. Previsível demais e desbalanceado. Topheavy. Deixa pra lá.):

Desde nossa primeira micromanifestação de rua (Um Brinde a Nenê Romano), trago no bolso aqueles cartõezinhos do Mundo Invisível/Red Umbrella Brasil. Os mesmos que eu havia distribuído às garotas e às travestis da Augusta e do centro.

Um dia desses, abordei a moça de cabelo azul. Lembrei a história do elevador, disse que ela merecia respeito. E entreguei um cartão. “Dá uma olhada.”

Ela é que me abordou, dias depois. “Que que é aquilo que tu me deu?”

Cáspite! Mais uma gaúcha! (ou minha memória me trai?)

Estou correndo, claro. Trabalho com noticiário financeiro em tempo real - e tempo eu não tenho, ele pertence ao maldito mercado. Gesticulo com o cigarro apagado e aponto a saída.

“Por que é que tu me deu aquilo? É um jornal de prostitutas.”

Respondo: “Take a Walk on the Wild Side.”

E digo que é exatamente isso, um jornal de putas. Falo sobre a violência, o preconceito e o estigma sofridos pelas trabalhadoras do sexo, sobre a proposta de legalização da profissão e sobre nosso movimento. Destaco a perspectiva feminista da coisa. Tudo rapidinho, que eu tô com pressa.

Um barbudinho da matilha parece levar o que eu digo mais a sério do que ela.

A moça do cabelo azul me olha com um olhar de desconfiança e censura que lembra minha irmã Patrícia aos 15 anos, quando eu esquecia um baseado em cima da escrivaninha ou fazia alguma coisa bizarra, como ler Rimbaud em voz alta ou ouvir Vapor Barato dez vezes seguidas.

Sorrio ao lembrar dessas coisas. A moça do cabelo azul pensa que eu estou sorrindo por causa dela – ou pior, que eu esteja tentando seduzi-la. Véio sem vergonha!

Apago o cigarro no incensário de catedral e subo correndo. Meu tempo não é meu.

… . .

Não vi mais a moça que pensa que eu sou cafetão.

Vou chamá-la de Patrícia, provisoriamente.

Hello Patricia. Pleased to meet you. Hope you get my name.

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